Filhos A difícil tarefa de deixar ir
A autonomia permite que a criança desenvolva a criatividade, habilidade fundamental para formar laços e resolver os problemas que surgirão ao longo da vida. Como dizia Donald Winnicott, o papel do ambiente não é ser perfeito, mas sim "suficientemente bom". Para ele, a mãe deve ser capaz de decepcionar gradualmente o bebê, pois é nesse espaço entre a necessidade e o atendimento que nasce o pensamento e a capacidade de criar.
O desafio reside no momento em que não conseguimos realizar essa separação. Criamos vínculos profundos; logo, sentir a dor desse distanciamento é natural. Quando compreendemos que esse processo é fundamental para que os filhos se tornem sujeitos saudáveis, conseguimos lidar melhor com o nosso próprio sofrimento. Afinal, para a psicanálise, o crescimento exige uma renúncia. Sigmund Freud, ao observar o brincar de seu neto (o famoso jogo do Fort-Da), notou que a criança precisa simbolizar a ausência da mãe para ganhar domínio sobre suas próprias emoções.
Quando não conseguimos "cortar o cordão umbilical" simbólico, comprometemos a saúde psíquica dos filhos e sua capacidade de lidar com a frustração. Sem o limite, eles podem enfrentar dificuldades na escola, no trabalho e em qualquer agrupamento social. Essa dificuldade dos pais muitas vezes decorre de uma dependência emocional que centraliza todo o afeto na prole, restando pouco para o mundo ao redor. Isso gera prejuízos para ambos, comprometendo relacionamentos e decisões pessoais.
Jacques Lacan nos lembra que a função do pai (ou da lei) é justamente intervir na relação simbiótica entre mãe e filho, introduzindo um terceiro elemento que permite à criança desejar para além desse núcleo. Sem esse "corte", o sujeito pode ficar aprisionado no desejo do outro.
Essa dependência que afeta nossas relações não surge do nada. Ela possui raízes profundas que, quando investigadas e ressignificadas no processo terapêutico, possibilitam a conquista de uma nova qualidade de vida para nós, para o nosso entorno e, principalmente, para o futuro de nossos filhos.
Essa jornada de soltar as mãos e permitir o voo dos filhos é, talvez, o exercício mais complexo de generosidade e autoconhecimento que alguém pode vivenciar. No entanto, como vimos, o peso de não conseguir realizar esse movimento pode se tornar um fardo invisível, limitando não apenas o futuro deles, mas o seu próprio presente.
Reconhecer que existe uma dificuldade em "cortar o cordão" não é um sinal de falha, mas um convite à reflexão. Muitas vezes, o medo do vazio que a independência do outro deixa em nós esconde questões que ficaram guardadas por muito tempo.
Investir em um processo terapêutico é dar a si mesma a oportunidade de olhar para essas raízes. É no espaço seguro da terapia que você pode:
Ressignificar o papel materno/paterno: Entender que o seu valor vai muito além da dedicação exclusiva ao outro.
Acolher as próprias angústias: Dar nome ao "aperto no coração" e transformar a culpa em compreensão.
Fortalecer a autonomia emocional: Aprender a habitar o seu próprio mundo para que, então, você possa ver seus filhos habitarem o deles com segurança.
Permita-se esse cuidado. Ao buscar análise ou psicoterapia, você não está apenas cuidando da sua saúde mental, mas oferecendo aos seus filhos o maior presente que um cuidador pode dar: a liberdade de serem quem são, sem o peso de terem que preencher as lacunas emocionais de quem os criou.
O primeiro passo para a liberdade deles começa na sua decisão de olhar para si. Que tal iniciar esse caminho hoje?
Janine Maciel
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